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Ganha forma governo electrónico nos distritos 222

Data: 13/06/2017

Todos os distritais de Niassa estão em condições de aceder à Internet e enviar dados ao governo provincial e outros lugares, através de redes móveis, que cobrem toda a província, evitando deste modo sujeitar os seus funcionários a longas viagens, pela mais extensa e menos transitável região do país.

“Quando quero enviar dados, uso este telemóvel como “modem”, que está ligado à rede da Movitel”, disse o Administrador do Distrito de Muembe, António Cajica, referindo-se a uma das poucas alternativas que tem de aceder à Internet, através da rede de operadora de telefonia móvel.

Apesar de estar relativamente próximo da capital provincial, aproximadamente a 60 quilómetros, Muembe é um dos distritos mais empobrecidos em termos de infra-estruturas sociais e económicas, mas pode orgulhar-se de dispor das redes de Movitel e Mcel, assim como da Rede Electrónica do Governo (GovNET), cobrindo esta última 13 dos 16 distritos da província.

Ao contrário do que acontece noutros distritos, em Muemba não existe nenhuma sala de informática, qualquer tipo de órgão ou estabelecimento vocacionado, como telecentro, centro multimédia ou radio comunitária. A maioria dos mais de 500 funcionários do distrito, incluindo uma centena dos que estão na secretaria provincial, não sabe, segundo o administrador, utilizar o computador.

O administrador, que chegou a Muembe transferido de Mavago, onde já tinha implementado algumas soluções de governo electrónio, destacou como seu maior desafio neste novo distrito a promoção de uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), a formação de pessoal e a recuperação dos computadores avariados por falta de manutenção.   

Em termos de TICs, os distritos da província de Niassa espelham o que se passa em toda a administração pública, com acentuadas diferenças de apropriação, que aumentam de sul para norte e dos órgãos centrais para locais. No entanto, os distritos têm o denominador comum de usarem as redes móveis para trocar dados com os respectivos governos provinciais e a vontade de superar as assimetrias a nível de TICs.

“Nós, no nosso distrito, precisamos de TICs para as nossas actividades do dia-a-dia, não só como instrumento de trabalho, mas como algo importante que não pode faltar nas nossas vidas, para não ficarmos isolados do mundo globalizado. Por isso, as TICs têm sido uma das minhas preocupações nos contactos que tenho mantido com os funcionários e com a população em geral”, disse Augusto Assique, administrador de Ngaúma, um distrito situado no triângulo de um dos mais precários troços de Niassa, Lichinga-Ngaúma-Cuamba-Meterica-Maúa-Marrupa, que tem cerca de 700 quilómetros em terra batida.

Em Ngaúma, apesar da dificuldade de assistência técnica, os funcionários sabem usar computador, mas ainda não estão ao nível dos outros distritos, conforme reconheceu o próprio administrador.

“Nunca se consegue trabalhar um mês sem corte”, disse, referindo-se à rede da TDM usada pela administração, a mesma da rede privativa do Governo.

Lamentou o facto de, por causa da indisponibilidade da rede, os funcionários terem que se deslocarem frequentemente a Lichinga para tratar de assuntos de serviço, como fazer a prova de vida, que poderiam ser tratados localmente, caso não houvessem cortes sistemáticos das comunicações.

O administrador disse ter mandado comprar três computadores no ano passado para suprir o défice do equipamento informático, que se agravou desde que alguém passou por lá para fazer manutenção de rotina e deixou tudo sem funcionar.

Uma equipa do Instituto Nacional das Tecnologias de Informação (INTIC), que escalou o distrito no âmbito de avaliação do projecto GovNET, tinha sido informada de que o site da rede não estava no ar, mas a verdade foi que apenas o e-SISTAFE é que estava fora de serviço. Mas os técnicos constataram a lentidão da rede, o que acontece com a maioria dos 119 sites da GovNET nos distritos.

Situação diferente à de Ngaúma é, porém, a de Mandimba, distrito que se encontra a meio do trajecto lichinga-Cuamba e faz fronteira com o Malawi. A administração do distrito tem uma rede física de computadores, com 13 unidades, incluindo sete laptops, a que se acrescenta o acesso à internet via wireless.

“Quando cheguei aqui no ano passado, mandei comprar sete laptops para facilitar a vida da minha equipa de trabalho”, disse a Secretária Permanente do Distrito, Elena Alberto Saíde.

Segundo a avaliação da equipa do INTIC, o sinal de internet captado neste distrito tem uma velocidade aceitável e é um dos poucos distritos que dispõe de alguma infra-estrutura de TICs funcional, que encoraja a apropriação das TICs por parte dos usuários.

O distrito conta também com uma escola secundária, uma sala de informática com 20 computadores, usados para formação na óptica de utilizador.

Os distritos de Niassa, nomeadamente Meterica, Maúa e Majune, assim como Mandimba, Muembe e Marrupa, têm em comum o facto de recorrerem à rede Movitel nas suas comunicações com o governo provincial, sendo este último um exemplo a destacar de apropriação das TICs.

“As TICs são muito importantes aqui porque todo o expediente que é tramitado de e para o distrito, e todo trabalho do nosso dia-a-dia, é por meio delas”, disse o Secretário Permanente de Marrupa, Alberto Massangano, acrescentando que todas as repartições da secretaria distrital usam computadores, entre desks e laptops.

Acrescentou ainda que, além de computadores, os funcionários usam telemóveis e a plataforma whatsapp para estabelecer ligações profissionais verticais e horizontais. O distrito tem uma escola secundária com uma sala de informática e 25 computadores, que são usados para a formação em TICs na óptica de utilizador.

“Neste momento, o que me preocupa é a instalação de uma rede interna de computadores. Em Namipepe, donde fui transferido para aqui, já tinha implementado uma rede de computadores e quero fazer o mesmo aqui”, disse, referido que, neste momento, a administração conta apenas com Wireless.

Segundo o Secretário Permanente, as administrações dos distritos vizinhos têm frequentemente se deslocado a Marrupa para realizar transacções electrónicas porque, a nível daquela região, é o distrito que oferece maior disponibilidade de TICs, em particular para operações de governo electrónico.

“A situação das TICs aqui é muito melhor que outros sítios”, comentou o Eng. António Archetti, consultor da Agência Italiana de Cooperação, frisando ser “surpreendente” a velocidade do sinal da internet, em plena hora de expediente.

“Fiquei surpreendido… porque o sinal da TDM está bom aqui”, disse, observando estar em presença de um raro caso em que a GovNET cumpre plenamente a função para que foi criada no distrito, uma vez que, na maioria dos casos, os utentes vêem-se obrigados a recorrer a redes móveis como alternativas.

Mercado de TICs em Marrupa atraiu empreendedor

As TICs pareciam ganhar mercado em Marrupa e seduziram o jovem químico Júlio André Guente, 31 anos, pela Universidade Pedagógica, a envidar-se para criar um centro de informática, primeiro junto da banca e depois do Estado, no âmbito do famoso programa dos sete milhões.

Conseguiu construir um edifício de raiz para uma sala de informática, uma internet café, e uma reprografia, entre outros objectivos. Mas, até agora, só conseguiu apetrechar a sala de formação, com 12 computadores, um número que está abaixo de metade da capacidade instalada.

O jovem empreendedor diz estar desgastado pelas dívidas que contraiu para construir o centro e adquirir o primeiro equipamento de formação, e já não acredita no projecto, por causa da fraca aderência do público, que está muito longe de garantir a sustentabilidade.

“Depois de todo o esforço realizado, vejo que a formação não tem aderência por causa dos preços”, disse, acrescentando que chegou a cogitar a hipótese de desistir do projecto.

A duração de formação é de dois meses, ao preço de 1500 meticais. Até ao momento, o centro conseguiu formar 128 pessoas. No estudo de viabilidade entravam também funcionários públicos, mas ainda está a ser difícil atraí-los via institucional, devido à crise que afecta o país.

A isto somam-se as dificuldades de reconhecimento oficial do centro, devido a razões burocráticas. O Gestor do Centro Provincial de Recursos Digitais (CPRD), Dércio Nathú, deu sugestões ao empreendedor de como poderia fazer para ultrapassar as dificuldades, assim a disponibilidade de colaboração institucional.

Consultor defende requalificação de técnicos

Para fazer face à falta de técnicos de TICs nos distritos, o consultor da Agência Italiana de Cooperação, António Archetti, defendeu a reconversão das qualificações profissionais de alguns técnicos dos quadros de pessoal a TICs, argumentando que, por causa da crise que afecta o país, seria difícil recrutar novos técnicos especializados.

“Seria mais fácil a requalificação de técnicos do quadro do pessoal existente nos distritos no lugar de recrutar novos técnicos por causa da situação de crise em que o país se encontra, e também porque os novos técnicos exigiram melhores condições e, na sua falta, seria difícil retê-los”, disse.

O consultor referiu que as visitas que tem realizado aos distritos, em todo o país, no âmbito de avaliação do projecto GovNET, lhe permitem afirmar que existe, nalguns dirigentes locais, o espírito de apropriação de TICs, porque, citando ainda o consultor, diante de dificuldades de aceder às redes de telecomunicações, os distritos não ficam amarrados a uma só solução.

O consultor citou como exemplo de apropriação de TICs nos distritos a declaração do administrador de Muembe, que disse que liga o seu telemóvel ao computar para aceder à internet e enviar dados.

“Outra coisa interessante é o facto de os secretários permanentes estarem conectados em redes para interagirem via whatsapp”, disse, acrescentando que isto revela que existe, naqueles distritos, muita sensibilidade sobre a importância da comunicação e das TICs.

Ele frisou que a sua maior constatação foi ver que a Movitel deu uma grande contribuição para tirar os distritos interiores do isolamento e se apresenta agora como um importante parceiro para soluções de governação e comércio electrónico nos distritos.

Sobre a possível continuação de cooperação para a consolidação dos ganhos da GovNET, em particular nos distritos, o consultor disse ser de opinião que, a haver essa cooperação, devia incidir sobre o suprimento das lacunas do projecto, nomeadamente uma forte componente de formação de técnicos e de logística para os distritos.

“Vimos que alguns distritos não conseguiram ir além de “router” e um computador ligado à internet. Não conseguiram estender a rede por mais computadores e essa dificuldade não se teve em conta no momento de concepção do projecto. Portanto, o alargamento das redes internas poderia ser um dos aspectos a ter em conta numa possível continuação do projecto”, disse.